Coisa que não se explica, se sente!
Recebi uma ligação de uma amiga, da época da escola, que me tornei parte da sua família após casar com o seu primo. Ela dizia que precisava falar para mim muita coisa sobre o Miguel.
Karol e eu engravidamos ao mesmo tempo, de dois meninos. E por isso ela passou tudo comigo de um ângulo muito delicado: ela também tinha um bebê dentro dela. Nossos filhos nasceram com uma diferença de 2 semanas, já que o meu parto foi antecipado em 10 dias.
A amizade entre nós duas tornou-se ainda maior durante a gravidez. Assim que eu fiz a Morfológica e descobri as más-formações do coração e da hidrocefalia, fiz o impossível para não contar a ela... (Porque ela também tinha um bebê que crescia dentro dela)... Mas a sua teimosia, ou sexto sentido, fez com que batesse à minha porta e olhasse nos meus olhos para ter certeza de que eu não escondia nada. E eu tive que contar que o Miguel precisaria de muitos cuidados.
Minha amiga precisava me dizer, após 6 meses da partida do meu filho, o que foi o Miguel na sua vida e na do seu filho.
Disse que o Davi sempre ouviu falar do primo, que ela fazia planos para os dois juntos, que tudo aquilo que passaríamos juntas, um dia seria lembrado por nós, sentadas embaixo de uma árvore, com nossos filhos correndo e brincando. Ela acreditava, assim como eu, que tudo ia passar, que as cirurgias viriam, mas que a cura do meu leãozinho seria junto a todos nós, crescendo, fazendo bagunça e pirraça.
Ela me disse que na noite que antecedeu o meu parto ficou ainda mais nervosa do que na do seu. Porque o Miguel era um pouco dela também, era um pouco do pequeno Davi. E essa ligação será eterna. Eles não vieram ao mundo num mesmo momento ao acaso. E a Karol sempre diz a ele sobre o seu primo quase irmão. E eu me sinto mais perto do meu filho quando tenho o meu sobrinho no colo. Eles sempre serão parte um do outro.
Em meio às nossas conversas - porque ela é uma das poucas pessoas que posso falar abertamente sobre tudo, inclusive sobre o meu filho e tudo o que passamos, sem me sentir desconfortável ou estranha, pois ela faz questão de dizer como se sente e, principalmente, quer tentar realmente me entender - eu soube que na noite que antecedeu a partida do meu filho, o Davi só fez chorar. E horas depois, seu pai colocou uma caixinha de música para tocar que o fez se acalmar, adormecer e, na hora, ela me disse que pensou no Miguel. Era uma música triste, que sempre quando toca faz lembrar-se dele.
Talvez fosse seu anjo-da-guarda dizendo que os dois primos não cresceriam juntos, que não iriam brigar pelos mesmos brinquedos, ou talvez fosse só o Miguel dizendo adeus.
Aracelli Moreira
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